• Carlos Rio

"Fangueiro", o Abutre-do-Egipto!

Não é nada comum aparecerem visitantes como o Abutre-do-Egipto (Neophron percnopterus) aqui no Parque Natural do Litoral Norte! Em Portugal esta espécie de Abutre tem no Douro Internacional a sua área preferencial para passar cá a época quente, chegados de África, onde nidificam e se reproduzem nas altas escarpas do Douro e do Rio Côa e outros locais semelhantes.

Posso, assim, sentir satisfação pela presença de um individuo desta espécie no Parque Natural do Litoral Norte, em particular em Fão; daí o baptismo de Fangueiro a este jovem de primeiro ano, parece, que aqui apareceu!

Vamos então à história! Ao que parece, no dia 22 de Outubro, Rui Soares, um amigo fora destas coisas da fotografia e das aves, viu um "pássaro" num campo ao lado da sua casa e fez umas fotos com o telemóvel:

Alguns dias depois, Rui Soares, envia esta e outra fotografia ao Tiago Vale e pergunta: "Que pássaro é este?" O Tiago Vale, por sua vez, envia-me as fotos do Rui e faz-me a mesma pergunta! Eu que ainda estava cheio de febre devido a uma virose, nem queria acreditar no que via: um Abutre-do-Egipto em Fão?!!! Pensei que fosse efeito da virose... Nos dias que se seguiram nunca mais foi visto... O Tiago, que vive na zona onde a ave tinha sido fotografada alguns dias atrás, nunca o conseguiu ver enquanto nos dias seguintes à recepção das fotos andou atento à vizinhança. Para nós foi uma tristeza porque pensamos que se tivesse ido embora, mas sempre com preocupação sobre o seu destino pois com certeza estaria enfraquecido e desorientado. Mas eis que há novidades: ontem, dia 31 de Outubro, ou seja, 9 dias depois de ter sido fotografado, sem nunca mais ter sido avistado (pelo menos do meu conhecimento), Augusto Gomes, fotógrafo, envia-me uma mensagem a avisar que o Abutre estava num telhado em frente da casa dele! Ora para quem achava que a ave já tinha ido embora é a partir deste momento, e só deste momento, que se vislumbra uma possibilidade de capturar a ave, visivelmente fraca e debilitada, com frio, fome e encharcada. Para nós este momento foi como se a ave tivesse acabado de chegar, como se não tivesse sido observada 9 dias antes, porque desde esse dia tinha desaparecido, até agora.

Contactei o PNLN e foram então accionados os planos: porque entretanto a ave saiu do telhado onde se encontrava, era necessário encontrar e capturar.

Fiz um apelo nas redes sociais aos "fotógrafos de natureza" para ajudarem na busca pela ave hoje de manhã. Apesar do mau tempo, nevoeiro e chuva consecutiva, o Nuno Vieira, o Daniel Sousa, o Rui Lemos e eu próprio, começamos a busca... Chega, entretanto, um técnico do ICNF (o Francisco, grande exemplo de dedicação à vida selvagem) que depois de me contactar encontrou-se connosco e continuamos a busca. Mais ninguém participou na busca: fotógrafos, pessoal do PNLN, activistas ambientais, ornitólogos... ninguém! Apenas 4 fotógrafos e o técnico do ICNF. Começou a deixar de chover e até a aquecer a temperatura ambiente e falamos sobre a possibilidade de estas condições puderem permitir que a ave se mostre para tentar aquecer-se e secar-se depois de passar uma noite à chuva. Algum tempo depois, um habitante local passa por nós e diz-nos que a 150 metros do local onde estávamos, e na área onde sempre se desconfiou que a ave andasse, estava no caminho uma ave grande, toda encharcada, a caminhar de um lado para o outro! Como malucos saímos desenfreados e lá estava Fangueiro, o Abutre-do-Egipto a abrir as asas no meio do caminho a tentar secar-se! Muito debilitado, com frio... Francisco, depois de um pequeno cerco feito por mim e pelo Rui Lemos, apanhou a ave com uma rede.

Seguiu para um centro de recuperação em Vila Real e está entregue a boas mãos, a quem sabe muito e tem muita experiência. Aguardamos notícias sobre a sua evolução e sobre a sua libertação, pois queremos estar presentes. Agradeço a todos, a todos, os que de alguma forma colaboraram, deram dicas, opiniões, e fizeram contactos para que fosse possível termos chegado a um final que só será feliz quando soubermos da sua recuperação total, mas que já foi muito importante dado que se trata de uma espécie com o Estatuto de Conservação de Em Perigo! Herói nesta história só Fangueiro, o Abutre-do-Egipto!